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São Paulo S.A. (1965), Luís Sérgio Person

In Filme on 30/05/2009 at 11:38 AM

São Paulo S. A., escrito e dirigido por Luís Carlos Person no ano de 1965, narra, através das experiências de Carlos, os processos pelos quais passava a parcela da classe média paulista envolvida com o crescimento industrial automobilístico no final da década de 50. A cidade crescia, impulsionada pela grande massa de mão de obra explorada do operariado e por uma pequena parcela especializada em como tornar “o homem, em vez de um ser livre, capaz de decisões, o dente de uma engrenagem da qual, frequentemente, ele nem chega a ter conhecimento”, nas palavras do próprio Person sobre o filme.

Carlos é um destes homens que fomenta as engrenagens da indústria. Vindo do Rio de Janeiro com o objetivo de buscar uma nova perspectiva para além das questões suscitadas por sua amante Ana, a qual chama de vigarista pela sua fome por dinheiro e sua ambição pelo consumo exacerbado, Carlos acaba por cair no conformismo que faz parte da identidade dessas pessoas da metrópole. Casa-se pelo cansaço com Luciana, com o argumento de não ter conseguido achar nada melhor, passa a trabalhar na fábrica de Arturo, fornecedor da Volkswagen e homem considerado exemplar porque vive numa sociedade em que é possível esconder o que é mais sujo, e assim vai sendo corroído diariamente pela cidade e pela vida que se vende na televisão como felicidade.

De maneira contrastante, Person intercala imagens particulares da vida de Carlos com imagens da cidade em constante movimento. Parece intencional o desejo do diretor em mostrar o quanto a construção das personagens do filme está intrinsecamente ligada ao caos e agitação da vida metropolitana. É como se as personagens não apenas vivessem e experimentassem a cidade, mantendo sua integridade interior desvinculada do mundo urbano, mas sim como se esta cidade estivesse dentro delas próprias, sem que pudessem existir dessa maneira em outro lugar.

Isso fica muito claro logo na primeira cena do filme, na qual podemos observar Carlos e Luciana gesticulando um com o outro de dentro do apartamento, com a câmera estrategicamente posicionada do lado de fora. Não é possível ouvir o conteúdo da discussão, porém, assim que ela acaba e Carlos sai de cena depois de empurrar Luciana para o chão, a câmera focaliza a paisagem urbana refletida no prédio, como se esta participasse ativamente na relação das personagens, não apenas como um fator externo a cena que acontece.

A relação de Carlos com sua mulher e amantes também expressa sua relação com a cidade. Entre Luciana, Ana e Hilda, sua amante intelectual que busca a todo instante a possibilidade de amar na cidade grande, o protagonista é levado as mais diversas experiências, a cada instante pendendo mais para uma perspectiva: a da vida certa do casamento e do trabalho, a da vida que se baseia na busca pelas compensações capitalistas dos luxos e confortos, a da vida incerta, na qual estamos como numa corda bamba entre a possibilidade da felicidade e a angústia de perdê-la. É uma relação dialética entre vontade de dominar e incapacidade de se render tanto as amantes quanto a própria cidade, o desejo de abandonar sua vida e fugir e seu conformismo de permanecer no mesmo lugar.

A relação do protagonista com o trabalho fecha o ciclo em que está inscrito e é fundamental para entender as relações construídas no filme. Carlos é um jovem formado, que pela possibilidade de emprego começa a trabalhar como assalariado numa fábrica, vislumbrando, assim que passa a trabalhar com Arturo, uma possibilidade de ascensão financeira. Esta ascensão é essencial na manutenção de sua relação com sua esposa, Luciana, uma vez que seu casamento também é colocado com uma garantia de que conseguiria sustentar descentemente sua família. Transparece no filme, neste momento, um questionamento acerca do processo de industrialização da cidade. Assim que se instalam as multinacionais, muitos passam a trabalhar com esse ofício e vêem neste uma possibilidade. Porém, este processo é uma escolha, ou são estes novos trabalhadores apenas incorporados sem que tenham consciência do papel que exercem numa engrenagem muito maior que si próprios?

Carlos, confuso em meio a seus questionamentos, consegue visualizar em Arturo muito das contradições que não consegue resolver. Um bom pai de uma família aparentemente exemplar, dono de um sítio e de uma empresa em fase de expansão, Arturo esconde que explora os operários, sonega tudo o que consegue, porém nunca é julgado como tal, apenas reconhecido por possuir bens materiais e prestígio. E essa é exatamente a crítica que Carlos faz a sua mulher, pois seu chefe passa a ser uma espécie de alter-ego do que faria Luciana feliz, fato comprovado quando esta tenta comprar a sociedade da empresa para que um dia seu marido possa ser tão ou mais exemplar que o outro.

Indignado, Carlos parte para um recomeço. Porém, sua relação dialética com o trabalho, as mulheres e a cidade de São Paulo já faz parte da composição interior sem que ele consiga escapar.

escrito por Giovanna Pezzuol Mazza