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Pindorama (1971), Arnaldo Jabor | Como era Gostoso meu Francês (1970-72), Nelson Pereira dos Santos

In Filme on 28/07/2009 at 10:49 AM

pindorama

Os filmes Pindorama, de Arnaldo Jabor, e Como era Gostoso o Meu Francês, de Nelson Pereira dos Santos são produções do início da década de 1970, e tratam do início da formação do Brasil no século XVI, na costa. À primeira vista, são o que chamamos de filmes históricos, mas como representantes do movimento do cinema novo, devem ser vistos dentro de uma leitura do contexto da época e da proposta dessa forma de fazer cinema à maneira brasileira.

Todas as imagens dos filmes são captadas em ambiente comum, sem estúdio e as atuações buscam a maior naturalidade possível. Os enredos, mais do que tramas que simplesmente envolvam espectador, buscam a reflexão por meio de alegorias, tentando representar o Brasil “verdadeiro”, o Brasil mais próximo do real. A busca de novas formas de se relacionar com o espectador,de novas linguagens que incluíssem posicionamentos políticos, culturais são características marcantes do cinema novo, que possuía, sobretudo, caráter de reflexão social.

Pensadas no contexto do cinema novo, as obras buscam tratar de temas contemporânos ao momento em que foram feitas. Um Brasil tenso, social e culturalmente, em pleno regime militar, na fase mais violenta do regime. São obras, que buscam, na sua essência, qual é o caráter do povo brasileiro.

frances

Como era Gostoso o Meu Francês conta a história Jean, homem daquele país que, após se ver desgarrado do grupo com o qual viajava, cai nas mãos da tribo dos tupinambás. Aprisionado, escravisado, tenta convencer de todos os modos o chefe da tribo de que ele era francês e não um português. Os lusitanos eram aliados dos tupinquins, inimigos mortais dos tupinambás, aliados, por sua vez, dos franceses. Jean passa oito meses convivendo, integrado àquela sociedade. Ajuda, com seus conhecimentos técnicos, os tupinambás a vencerem seus inimigos. Porém, nenhum esforço faz com que a tribo mude de idéia. Acabada a guerra, Jean, num grande ritual antropofágico, é morto.

É clara a valorização, por parte de Nelson Pereira dos Santos, do papel dos povos indígenas como formadores da cultura brasileira. Ao apresentar a sociedade tupinambá em sua complexidade, e não como meros guerreiros-comedores-de-homens, o diretor transmite que, antes da chegada dos europeus, já haviam culturas aqui e que essas não se submeteram à “superioridade branca”, seja qual fosse a nação.

Jean, que é o inimigo e um homem com muitas qualidades – é aquele que produz pólvora, se relaciona com tupã, o deus da chuva, ensina os índios a manusearem o canhão – é também o devorado pelos tupinambás que, por sua vez, acreditavam que estariam absorvendo as qualidades do inimigo devorado. O comportamento de Jean, reagindo com bravura, sem medo, a sua morte; desejando vingança, aos moldes dos tupinambás, “barbariza” o europeu. A mistura é completa, uma geléia geral. Como anunciara Oswald de Andrade, que muito influenciou o cinema novo.

Já em Pindorama, Arnaldo Jabor parte para uma representação altamente alegórica. O filme se passa na vila de Pindorama do começo da colonização, mas as questões discutidas são as do final da década de 1960. “Os fatos aqui narrados são imaginários, se bem que verídicos”, como é enunciado no começo do filme. A música, o linguajar e os figurinos, muito mais próximos da década de 60 do que do século XVI, são afimações do contexto real que o autor que tratar.

O que ocorre em Pindorama se baseia na relação entre o poder e o povo. Pode-se estar contra o rei e contra o povo, caso das personagens do governador e D. Diogo. Ou contrário, como D. Sebastião e a Igreja. Ou ser pelo povo e contra o poder, caso do artista. Outros elementos presentes são a alienação, a irracionalidade, superstição, representadas pela mulher de D. Sebastião. Povo, artista e Igreja nos seus característicos papéis. O governador como o político corrupto, aproveitador. O rei seria o imperialismo, D. Sebastião representaria as forças armadas; D. Diogo, a burguesia nacional.

As disputas entre povo e poder, com todos esses outros grupos atuando e se posicionado levou à cidade de Pindorama à loucura e destruição. Um posionamento mais claro do que isso, para a época do filme, talvez impossível. Vitória da loucura e alienação, sob comando militar, ainda que a arte cause um grande desconforto.

Pela linguagem extremamente original e rebuscada, o filme é de dificíl compreensão, embora a comunição direta do autor com o público (a chamada queda da quarta parede) e intrevenções explicítas sobre o caráter das personagens e situação do país contribuam para a o norteamento daquilo que Jabor buscou transmitir.

Então, mais do que filmes que busquem contar a verdade sobre o passado brasileiro para o povo, o que se observa nessas duas obras é a tentativa de compreender a constituição da nação brasileira a partir de momentos históricos especícficos, sejam eles alegorias ou não.