História, Cultura e Identidade Nacional

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Uma primeira reflexão sobre tema

In Propostas on 17/07/2009 at 9:59 AM

revolucao francesa

A nação e o nacionalismo são fenômenos de difícil compreensão. Sua complexidade reside no fato de serem parte de estruturas que até hoje nos circundam e nos motivam, apesar da crença de alguns por seu inevitável desaparecimento. Não é possível compreender a sociedade contemporânea – seus conflitos, esperanças, fés, e medos – sem passar pelo conceito de nação e nacionalismo.
O primeiro passo para seu esclarecimento é estabelecer a dimensão de sua historicidade, seus limites no tempo e no espaço. A origem da nação é mítica. Seu surgimento supostamente remonta tempos lendários e antigos, quando se constituem os desenhos étnico, lingüístico, racial e cultural de cada civilização que disputará entre si o espaço vital de sua sobrevivência ao longo da História. Seria, portanto, tão antiga quanto a própria História.
Na realidade, não há nada que exprima melhor a modernidade que a instituição do Estado-Nação. Sua constituição se dá concomitante e correspondente à formação da grande indústria e das relações de classe. Poderia ser inclusive datada segundo o historiador Eric J. Hobsbawn para a década de 1780, sendo a França o seu exemplo mais marcante e abrangente. Marcante por ter sido durante a Revolução de 1789 que se construiu a base da simbologia da ideologia nacionalista, culminada na instituição da religião cívica. Abrangente por sua repercussão sem tamanho que abalou estruturas e alicerces de um sistema que se entrelaçava por todo o mundo. Os reis foram subjugados e a bandeira tricolor – símbolo da Igualdade, Fraternidade e Liberdade – ergueu-se pelos confins do Ocidente.
A utilização do verbo “construir” não é acaso. A “nação” é antes de tudo uma construção, uma invenção. Nada mais natural, levando-se em conta o caráter da sociedade capitalista moderna, artificializada, colorida e de concreto. Seu objetivo é a sustentação de uma unidade política e econômica congruente. Sua base é a relação com outras unidades políticas e econômicas realizada através do comércio, hierarquizado segundo a divisão internacional do trabalho. Suas fronteiras são os limites do mercado nacional e da mão-de-obra nacional; a expansão redunda na ampliação de ambos – um que recheia os cofres estatais, outro que trabalha para recheá-los.
A engenharia social que envolve a invenção da identidade nacional pode ser identificada no processo de padronização – quando não formulação – da língua nacional. Processo que impõe a tecnologia da imprensa, a alfabetização em massa e, portanto a escolarização em massa, promovida pelas escolas públicas laicas. Esse tipo particular de Estado territorial – o Estado-Nação – só será possível num estágio específico de desenvolvimento tecnológico e só pode ser compreendido sob o espectro da ascensão da burguesia em finais do séc. XVIII. A interação entre os vários reinos, simbolizada pelos matrimônios entre a nobreza de países diferentes, será substituída pela competição e rivalidade que culminará nos horrores das guerras mundiais.
A construção nacional, entretanto,  se desenvolve dialeticamente num processo que vai desde a promoção da “consciência nacional” que atinge os grupos sociais desigualmente até a consolidação de programas nacionalistas que adquirem sustentação de massa. Este desenvolvimento é longo, repleto de rupturas, descontinuidades e em constante conflito.
Portanto, acima de tudo, o trabalho de analisar o fenômeno das nações e nacionalismos é um esforço delicado, pois devemos enxergá-los como “fenômenos duais, construídos essencialmente pelo alto, mas que, no entanto, não podem ser compreendidas sem ser analisadas de baixo, ou seja, em termos das suposições, esperanças, necessidades, aspirações e interesses das pessoas comuns, as quais não são necessariamente nacionais e menos ainda nacionalistas” (HOBSBAWN, 1990 – Nações e nacionalismo desde 1780, p.20).

 

Ariel Pires de Almeida