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“Deus e o Diabo na terra do Sol”, de Glauber Rocha

In Filme on 03/08/2009 at 5:08 PM

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Realizado no ano de 1964 “Deus e o Diabo na terra do Sol”  é o segundo longa-metragem de Glauber Rocha. A obra é reconhecida como um dos marcos do Cinema Novo, movimento artístico que aliava à estética inovadora  uma intensa combatividade política e que aprofundou  a reflexão sobre a linguagem cinematográfica no Brasil dos anos 60 e 70.  As obras de Glauber podem ser caracterizadas pela busca por um distanciamento da razão burguesa, tomando a arte como única linguagem capaz de se aproximar em profundidade da mística e do imaginário popular.

Glauber propõe ao espectador uma experiência de choque, não apenas pela abordagem de temas inovadores que estabelecem  reflexões acerca da cultura nacional, mas principalmente pela radicalização dos aspectos formais em suas obras.

Em “Deus e o diabo na terra do sol” Glauber constrói uma obra política sem, no entanto, elaborar uma reflexão política sistematizada. Sua proposta é politizar o misticismo, o irracionalismo e o inconsciente, sendo desta forma capaz de subverter a lógica de dominação do racionalismo ocidental. A partir de uma lírica que se aproxima da modernista o filme aborda questões como o milenarismo sebastianista, o cangaço, a exploração dos sertanejos pelos coronéis nordestinos e a solução dos distúrbios sociais pela bala.

O filme tem inicio com a imagem de uma carcaça em decomposição, introduzindo o espectador, através de uma imagem simbólica, à miséria, aridez e solidão nordestinas. A trama se desenvolve quando o vaqueiro Manuel, percebendo a exploração que o vitimiza,   assassina o coronel Morais e é obrigado a fugir com sua mulher Rosa. Durante a fuga, Manuel entra em contato com o beato Sebastião e seus seguidores e a eles se integra.

É possível perceber que a construção do personagem beato Sebastião mescla referencias a Antônio conselheiro e às construções míticas em torno do retorno do rei português  D. Sebastião. O beato Sebastião representa a imagem mítica do messias capaz de transformar a ordem vigente , reunindo em torno de si sertanejos oprimidos pela miséria e pelo autoritarismo. Por meio de um catolicismo místico e popular, que foge aos cânones da Igreja Católica, e através de um discurso não-linear, Sebastião prega uma idade de ouro para os oprimidos afirmando que o “sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”.

Os beatos seguem para a terra sagrada de Monte Santo e passam a ser enxergados por coronéis e autoridades da igreja católica como ameaças à manutenção da ordem social. O matador de cangaceiros Antonio das Mortes é contratado a fim de exterminar a comunidade de beatos  . Apenas Manuel e Rosa sobrevivem ao massacre e em nova fuga se unem ao bando de cangaceiros liderados por Corisco. Estes, assim como os beatos, são sertanejos oprimidos pela fome e pela miséria, que adquirem visibilidade através da violência e da subversão da ordem.  A maior parte do bando, inclusive Lampião e Maria Bonita, já havia sido exterminada por Antonio das Mortes, que continua perseguindo Corisco até finalmente assassiná-lo .

Ao longo do filme acompanhamos a saga do vaqueiro Manuel e de seus encontros com o Deus negro (beato Sebastião) e o Diabo loiro (Corisco). A força do filme reside justamente na busca por desarticular a razão ocidental que reprime e destrói tudo que é irracional. Para isso Glauber não apenas tematiza, mas também incorpora na linguagem e na forma do filme o misticismo e a irracionalidade.