História, Cultura e Identidade Nacional

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Cinema, História e Ensino

In Uncategorized on 10/08/2009 at 7:20 PM

man_with_a_movie_camera_poster_2Objetivo – a compreensão da obra de Glauber Rocha em vistas ao entendimento da construção da identidade nacional e das identidades de classe a partir de um ponto particular da História e por uma visão peculiar de estética

Tema: Revoltas Sociais na Primeira República – 1889-1930 (5 dias – 2 hs diárias)

Dia 1 – Exibição de “Deus e o diabo na terra do Sol”, Glauber Rocha (1964)

Dia 2 e 3 – Análise do filme (cena a cena)

Dia 4 – Contextualização e conceitualização das revoltas sociais da primeira república – tradições e contradições da estrutura política, econômica e social da República Velha e seus desenlaces

Dia 5 – contextualização da conjuntura e estrutura internacional do período (1889-1930) – A belle époque e o choque (Pax Britanica, Império e Imperialismo, Guerra Revolução e Crise)

Idealizadores: Ariel Pires de Almeida e Henrique Nakamura

Apoio: Cursinho Emancipa

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Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1968), Parte II

In Filme on 03/08/2009 at 11:27 PM

roberto aventura

Os filmes de Roberto Carlos são importantes, pois revelam um amplo painel  da cultura brasileira nos anos 60. Roberto Carlos em Ritmo de Aventura faz parte de uma trilogia, completada por “Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-rosa”, de 1970, e “Roberto Carlos a 300 Quilômetros por hora”, de 1971. Todos foram dirigidos por Roberto Farias. Apenas no último Roberto Carlos não interpreta a si mesmo, mas um mecânico que sonha em ser piloto de Fórmula 1.

O filme é o resultado de uma parceria entre Roberto Carlos e Roberto Farias, que já havia dirigido em 1962 o filme “Assalto ao trem pagador”, bem recebido pela crítica e público. Junto com o filme, no mesmo ano, Roberto Carlos, com seu super-grupo RC-7, lançava o disco que é considerado o melhor de sua carreira, Roberto Carlos em Ritmo de Aventura.
O antagonismo entre o grupo que se uniu em torno da Jovem Guarda e o público dos festivais, incluindo aí o tropicalismo, era evidente. O que ficou conhecido como “Jovem Guarda” foi alvo de críticas hostis, acusações de alienação, descompromisso, e até de compactuação com o imperialismo americano. Entretanto, para constatarmos o impacto provocado pela Jovem Guarda e sua importância, basta analisar as vendagens de discos, audiência do programa e bilheteria deste filme.
Sua penetração popular não revela, mas oculta muitos aspectos da nacionalidade brasileira, e é aí que reside sua importância para nosso projeto. O rock brasileiro, ou a Jovem Guarda, merecem ser encarados como manifestações da contracultura em nosso país. O que hoje em dia soam como canções ingênuas, representaram um certo tipo de rebeldia para os padrões morais de sua época. E no final dos anos 60 e início dos 70, alguns desses mesmos artistas radicalizaram suas propostas estéticas e musicais, em algo que pode ser considerado a psicodelia brasileira. Ronnie Von foi o responsável por introduzir Os Mutantes no cenário musical, gravando com eles e Rogério Duprat seu LP de 1968. Erasmo Carlos, o outrora Tremendão, lança em 1971 o disco “Carlos, Erasmo”, no qual mistura com genialidade rock, samba, berimbaus e referências psicodélicas explícitas.
Roberto Carlos não assumiu a mesma postura. Na virada da década, Roberto Carlos se estabelece como um cantor das multidões, já coroado “Rei” por Abelardo Barbosa, o Chacrinha, em 1966. Assim, tem início sua fase romântica. Não por isso menos criativa musicalmente. Sua ligação com o Soul e a música negra americana tiveram grande êxito, como nas músicas “As curvas da estrada de Santos”, de 1969 e “Todos estão surdos” e “Como dois e dois são cinco”, de seu LP de 1971. Portanto, enquanto os dois últimos filmes da trilogia revelam ainda uma ingenuidade, musicalmente, muitos daqueles artistas davam sinais claros de maturidade.
O filme analisado aqui também adota alguns experimentos do cinema de vanguarda, como a meta-linguagem, pois estamos assistindo a um filme dentro do filme durante toda a narrativa, demonstrando que não se trata de um mero pastiche, mas carrega toda a complexidade de uma época.

“Deus e o Diabo na terra do Sol”, de Glauber Rocha

In Filme on 03/08/2009 at 5:08 PM

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Realizado no ano de 1964 “Deus e o Diabo na terra do Sol”  é o segundo longa-metragem de Glauber Rocha. A obra é reconhecida como um dos marcos do Cinema Novo, movimento artístico que aliava à estética inovadora  uma intensa combatividade política e que aprofundou  a reflexão sobre a linguagem cinematográfica no Brasil dos anos 60 e 70.  As obras de Glauber podem ser caracterizadas pela busca por um distanciamento da razão burguesa, tomando a arte como única linguagem capaz de se aproximar em profundidade da mística e do imaginário popular.

Glauber propõe ao espectador uma experiência de choque, não apenas pela abordagem de temas inovadores que estabelecem  reflexões acerca da cultura nacional, mas principalmente pela radicalização dos aspectos formais em suas obras.

Em “Deus e o diabo na terra do sol” Glauber constrói uma obra política sem, no entanto, elaborar uma reflexão política sistematizada. Sua proposta é politizar o misticismo, o irracionalismo e o inconsciente, sendo desta forma capaz de subverter a lógica de dominação do racionalismo ocidental. A partir de uma lírica que se aproxima da modernista o filme aborda questões como o milenarismo sebastianista, o cangaço, a exploração dos sertanejos pelos coronéis nordestinos e a solução dos distúrbios sociais pela bala.

O filme tem inicio com a imagem de uma carcaça em decomposição, introduzindo o espectador, através de uma imagem simbólica, à miséria, aridez e solidão nordestinas. A trama se desenvolve quando o vaqueiro Manuel, percebendo a exploração que o vitimiza,   assassina o coronel Morais e é obrigado a fugir com sua mulher Rosa. Durante a fuga, Manuel entra em contato com o beato Sebastião e seus seguidores e a eles se integra.

É possível perceber que a construção do personagem beato Sebastião mescla referencias a Antônio conselheiro e às construções míticas em torno do retorno do rei português  D. Sebastião. O beato Sebastião representa a imagem mítica do messias capaz de transformar a ordem vigente , reunindo em torno de si sertanejos oprimidos pela miséria e pelo autoritarismo. Por meio de um catolicismo místico e popular, que foge aos cânones da Igreja Católica, e através de um discurso não-linear, Sebastião prega uma idade de ouro para os oprimidos afirmando que o “sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”.

Os beatos seguem para a terra sagrada de Monte Santo e passam a ser enxergados por coronéis e autoridades da igreja católica como ameaças à manutenção da ordem social. O matador de cangaceiros Antonio das Mortes é contratado a fim de exterminar a comunidade de beatos  . Apenas Manuel e Rosa sobrevivem ao massacre e em nova fuga se unem ao bando de cangaceiros liderados por Corisco. Estes, assim como os beatos, são sertanejos oprimidos pela fome e pela miséria, que adquirem visibilidade através da violência e da subversão da ordem.  A maior parte do bando, inclusive Lampião e Maria Bonita, já havia sido exterminada por Antonio das Mortes, que continua perseguindo Corisco até finalmente assassiná-lo .

Ao longo do filme acompanhamos a saga do vaqueiro Manuel e de seus encontros com o Deus negro (beato Sebastião) e o Diabo loiro (Corisco). A força do filme reside justamente na busca por desarticular a razão ocidental que reprime e destrói tudo que é irracional. Para isso Glauber não apenas tematiza, mas também incorpora na linguagem e na forma do filme o misticismo e a irracionalidade.

Rádio Brasil: Nação e Nacionalismo | No 7

In Música on 03/08/2009 at 5:00 PM

carlos lyra

Carlos Lyra | Influência do Jazz [1963] Compositor: Carlos Lyra | LP “Depois do Carnaval: O sambalanço de Carlos Lyra” | Philips

Pobre samba meu
Foi se misturando se modernizando, e se perdeu
E o rebolado cadê?, não tem mais
Cadê o tal gingado que mexe com a gente
Coitado do meu samba mudou de repente
Influência do jazz

Quase que morreu
E acaba morrendo, está quase morrendo, não percebeu
Que o samba balança de um lado pro outro
O jazz é diferente, pra frente pra trás
E o samba meio morto ficou meio torto
Influência do jazz

No afro-cubano, vai complicando
Vai pelo cano, vai
Vai entortando, vai sem descanso
Vai, sai, cai… no balanço!

Pobre samba meu
Volta lá pro morro e pede socorro onde nasceu
Pra não ser um samba com notas demais
Não ser um samba torto pra frente pra trás
Vai ter que se virar pra poder se livrar
Da influência do jazz

O bandido da luz vermelha, 1968, Rogério Sganzerla

In Filme on 31/07/2009 at 4:03 PM

“Os personagens não pertencem ao mundo, mas ao terceiro mundo”. Com esta frase num letreiro inicia-se “O Bandido da Luz Vermelha”, grande ícone do cinema marginal que se baseia na vida do famoso criminoso João Acácio Pereira da Costa para descrever os ares da chamada boca do lixo paulista.

Vindo da favela do tatuapé “com uma taxinha encravada no pé” o bandido é perseguido ao longo do filme pelo investigador Cabeção, que segue os rastros de seus homicídios. Ambos caracterizam o tom sarcástico que o filme possui pois suas ações vão de encontro aos ideais e a moral da classe burguesa. A narração jornalística sensacionalista dirigida ao telespectador também contribui com a atmosfera cômica do filme.

escrito por Giovanna Pezzuol Mazza

Cinco Vezes Favela – Parte Dois (1962)

In Filme on 29/07/2009 at 11:51 PM

5 Vezes Favela_Couro de Gato

A terceira destas narrativas chama-se “couro de gato” e é dirigida por Joaquim Pedro de Andrade. Conta a história de meninos de favela que roubam gatos para vende-los ao homem que irá arrancar o couro dos gatos para a confecção de tamborins. É interessante a tensão criada pelo diretor entre a luta por sobrevivência dos meninos na dura vida da favela e os desejos e sonhos de uma criança. O diretor cria uma certa ambigüidade ao caracterizar o menino que é bem sucedido no roubo do gato: de uma lado ele se distancia do fato de ser uma criança por roubar um gato, fumar cigarro e ser muito esperto; de outro é caracterizado como inocente pelo diretor quando este sugere a partir das imagens o ato de roubar um gato como uma brincadeira de crianças de favela, além do desejo que a criança demonstra, após estar com o gato em mãos, de ficar com o gato e brincar com ele. A ambigüidade se desfaz no momento em que o menino divide sua comida com o gato. Percebendo os custos que o gato traria para sua vida já miserável a criança deixa de lado seus desejos infantis e ingênuos e “opta” por continuar sua luta por sobrevivência em meio a dura realidade em que vive, vendendo o gato.

O quarto episódio do filme tem a direção de Carlos Diegues e se chama “Escola de samba Alegria de Viver”. Consiste basicamente na tensão enfrentada por um novo presidente de um grêmio recreativo da favela entre superar as dificuldades da realização de um desfile de carnaval da forma que deseja e sem dinheiro ou ceder às imposições financeiras e comerciais do meio. Aqui o contexto social da favela e da falta de dinheiro é mostrado como um limitador das escolhas de seus habitantes.

A ultima narrativa que compõe o filme chama-se “Pedreira de São Diogo” e foi dirigido por Leon Hirszman. A trama consiste no fato de existir uma favela sobre uma pedreira. Ao descobrirem que a próxima carga de explosivos será suficientemente grande para acarretar o desabamento dos barracos os funcionários da pedreira, alguns deles moradores da favela, se mostram bastante preocupados com a situação e tentam achar uma solução para salvar os barracos e os favelados, sem que percam seus empregos. Para tanto, um dos operários sobe à favela a fim de avisar os moradores do iminente desabamento e incita-los a resistir. O diretor cria uma oposição entre os funcionários da pedreira e favelados contra o engenheiro (caracterizado como uma personagem desumanizada) que representa os interesses do dono da pedreira.

Soldado de Deus (2005), Sérgio Sanz

In Documentário, Filme on 29/07/2009 at 9:02 PM

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Sustentado pelo tripé Deus, Pátria e Família, Plínio Salgado lança, no começo da década de 1930, o Integralismo, movimento nacionalista com viés espiritual. Apoiado pela Igreja, pela burguesia, por intelectuais e por uma conjuntura internacional favorável, a Ação Integralista Brasileira tem um crescimento vertiginoso em um curto espaço de tempo, chegando a contar com, aproximadamente, 500 mil membros. Porém, com a instauração do Estado Novo em 1937, a AIB entra na ilegalidade, assim como os demais partidos políticos, perdendo espaço e caindo no esquecimento.

Sérgio Sanz nos apresenta, em sua obra, o surgimento, apogeu e declínio do dito “fascismo verde-e-amarelo”, lançando mão de diversos depoimentos de membros, dissidentes e oposicionistas da AIB e seu líder, além de um rico acervo de época.

Pindorama (1971), Arnaldo Jabor | Como era Gostoso meu Francês (1970-72), Nelson Pereira dos Santos

In Filme on 28/07/2009 at 10:49 AM

pindorama

Os filmes Pindorama, de Arnaldo Jabor, e Como era Gostoso o Meu Francês, de Nelson Pereira dos Santos são produções do início da década de 1970, e tratam do início da formação do Brasil no século XVI, na costa. À primeira vista, são o que chamamos de filmes históricos, mas como representantes do movimento do cinema novo, devem ser vistos dentro de uma leitura do contexto da época e da proposta dessa forma de fazer cinema à maneira brasileira.

Todas as imagens dos filmes são captadas em ambiente comum, sem estúdio e as atuações buscam a maior naturalidade possível. Os enredos, mais do que tramas que simplesmente envolvam espectador, buscam a reflexão por meio de alegorias, tentando representar o Brasil “verdadeiro”, o Brasil mais próximo do real. A busca de novas formas de se relacionar com o espectador,de novas linguagens que incluíssem posicionamentos políticos, culturais são características marcantes do cinema novo, que possuía, sobretudo, caráter de reflexão social.

Pensadas no contexto do cinema novo, as obras buscam tratar de temas contemporânos ao momento em que foram feitas. Um Brasil tenso, social e culturalmente, em pleno regime militar, na fase mais violenta do regime. São obras, que buscam, na sua essência, qual é o caráter do povo brasileiro.

frances

Como era Gostoso o Meu Francês conta a história Jean, homem daquele país que, após se ver desgarrado do grupo com o qual viajava, cai nas mãos da tribo dos tupinambás. Aprisionado, escravisado, tenta convencer de todos os modos o chefe da tribo de que ele era francês e não um português. Os lusitanos eram aliados dos tupinquins, inimigos mortais dos tupinambás, aliados, por sua vez, dos franceses. Jean passa oito meses convivendo, integrado àquela sociedade. Ajuda, com seus conhecimentos técnicos, os tupinambás a vencerem seus inimigos. Porém, nenhum esforço faz com que a tribo mude de idéia. Acabada a guerra, Jean, num grande ritual antropofágico, é morto.

É clara a valorização, por parte de Nelson Pereira dos Santos, do papel dos povos indígenas como formadores da cultura brasileira. Ao apresentar a sociedade tupinambá em sua complexidade, e não como meros guerreiros-comedores-de-homens, o diretor transmite que, antes da chegada dos europeus, já haviam culturas aqui e que essas não se submeteram à “superioridade branca”, seja qual fosse a nação.

Jean, que é o inimigo e um homem com muitas qualidades – é aquele que produz pólvora, se relaciona com tupã, o deus da chuva, ensina os índios a manusearem o canhão – é também o devorado pelos tupinambás que, por sua vez, acreditavam que estariam absorvendo as qualidades do inimigo devorado. O comportamento de Jean, reagindo com bravura, sem medo, a sua morte; desejando vingança, aos moldes dos tupinambás, “barbariza” o europeu. A mistura é completa, uma geléia geral. Como anunciara Oswald de Andrade, que muito influenciou o cinema novo.

Já em Pindorama, Arnaldo Jabor parte para uma representação altamente alegórica. O filme se passa na vila de Pindorama do começo da colonização, mas as questões discutidas são as do final da década de 1960. “Os fatos aqui narrados são imaginários, se bem que verídicos”, como é enunciado no começo do filme. A música, o linguajar e os figurinos, muito mais próximos da década de 60 do que do século XVI, são afimações do contexto real que o autor que tratar.

O que ocorre em Pindorama se baseia na relação entre o poder e o povo. Pode-se estar contra o rei e contra o povo, caso das personagens do governador e D. Diogo. Ou contrário, como D. Sebastião e a Igreja. Ou ser pelo povo e contra o poder, caso do artista. Outros elementos presentes são a alienação, a irracionalidade, superstição, representadas pela mulher de D. Sebastião. Povo, artista e Igreja nos seus característicos papéis. O governador como o político corrupto, aproveitador. O rei seria o imperialismo, D. Sebastião representaria as forças armadas; D. Diogo, a burguesia nacional.

As disputas entre povo e poder, com todos esses outros grupos atuando e se posicionado levou à cidade de Pindorama à loucura e destruição. Um posionamento mais claro do que isso, para a época do filme, talvez impossível. Vitória da loucura e alienação, sob comando militar, ainda que a arte cause um grande desconforto.

Pela linguagem extremamente original e rebuscada, o filme é de dificíl compreensão, embora a comunição direta do autor com o público (a chamada queda da quarta parede) e intrevenções explicítas sobre o caráter das personagens e situação do país contribuam para a o norteamento daquilo que Jabor buscou transmitir.

Então, mais do que filmes que busquem contar a verdade sobre o passado brasileiro para o povo, o que se observa nessas duas obras é a tentativa de compreender a constituição da nação brasileira a partir de momentos históricos especícficos, sejam eles alegorias ou não.

Mito das nações

In Propostas on 19/07/2009 at 7:35 PM

nação e nacionalismo

Para melhor situar o conceito de nação e nacionalismo, especifiquemos sua construção, enfatizando a peculiaridade espaço-temporal da ideologia, segundo os mitos fundadores dos Estados. É interessante ressaltar que é na escola pública – em especial nas disciplinas relacionadas às humanidades – que reside um dos fortes aparatos de proliferação e domesticação da população nos moldes do patriotismo. O ensino de História e Geografia ocupa posição privilegiada nesse processo, assim como a gramática, que participa deste ao impor a padronização da língua nacional. As disciplinas exatas, por seu lado, preparam a sociedade para sua própria exploração e adaptação no sistema numeral do dinheiro. Enquanto estas formam um bom operário, aquelas moldam um digno cidadão.

Comecemos pelo berço da ideologia nacional. Na França, a nação não é uma “entidade natural”, mas uma realidade jurídica, “um sujeito político que substitui ao rei como titular da soberania”. É associada ao mito da igualdade e liberdade dos indivíduos que se unem através do contrato social, enraizado pelo racionalismo universalista e abstrato da fraternidade. A base social desse processo é uma burguesia radicalizada em luta contra a nobreza do Antigo Regime. A invenção é a idéia de “soberania popular”. Os alemães, ao contrário, desenvolvendo seu Estado nacional de cima para baixo e em parte contra a burguesia, vão buscar nos valores étnicos o fundamento de sua nacionalidade. A eles, “a necessidade de emancipação do indivíduo é menos fortemente sentida do que a necessidade de enquadramento e comunhão”. A formação da nação depende de um desenvolvimento interno, de um desdobramento espontâneo, dado que as relações sociais são naturalizadas. Para o francês, é regida por agentes externos, em particular o legislador, visto como construtor da nação.

Ao se transplantar esse corpo teórico para a realidade brasileira, esbarra-se em diversos obstáculos. Uma formação social assentada na mão-de-obra escrava e marcada fortemente pelo personalismo do poder impedirão a existência de uma nação firmada por um pacto social como no caso francês ou americano. Ao mesmo tempo, no Brasil o elemento cultural era frágil, não constituindo a etnicidade ou a História por si só como elementos unificadores como na Alemanha. Aqui predominarão as idéias positivistas francesas, apresentadas por Benjamim Constant, para a elaboração de uma determinada concepção de sociedade, embasada na hierarquia e plenamente simbolizada pelo lema de nossa bandeira republicana “Ordem e Progresso”. Aqui o nacional corresponde à pátria, “sendo esta o prolongamento da família”. Essa linha de pensamento vinda da França se relaciona ao período em que neste país se reelaborou o conceito de nação para um ideal determinista, hierarquizante, xenófobo e anti-semita. A idéia de “ser nacional”, singularizado por um lugar quase físico, anteposto ao racionalismo universalista abstrato, ganha força entre os intelectuais brasileiros.

Eric J. Hobsbawn propõe uma periodização do desenvolvimento do conceito de nação. A primeira fase comporta o período de 1830-80, marcado pela consolidação do poder burguês na Europa e início de sua expansão imperialista. O ideário é o “princípio de nacionalidade”, definido pela extensão territorial – o ‘espaço vital’ de cada nação – e caracterizado pela ideologia da economia política liberal. O segundo momento (1880-1918) é o da “idéia nacional”, projetado por intelectuais pequeno-burgueses que enfatiza a unidade da língua, raça, religião. Seu contexto é do fortalecimento de grupos socialistas e do arrefecimento da luta de classes. O Estado passa a necessitar de algo mais que a passividade de seus cidadãos: precisa de sua mobilização e influência a seu favor (CHAUÍ, 2000; p.19). Finalmente, a terceira fase (1918-50/60) é a chamada “questão nacional”, marcada pela idéia de consciência nacional e do nacionalismo militante inspirado pelos novos meios de comunicação de massa como o rádio, o cinema e a televisão. A conjuntura é de revolução social, guerra e depressão.

O que entorna essa periodização é a formulação do ‘mito fundador’ e suas mudanças de interpretação e identificação ao longo do tempo. O mito fundador francês é a liberdade, a igualdade e a fraternidade, a valorização da jurisprudência romana. O alemão é a lenda da pureza da raça ariana e a comunhão orgânica herdada dos bárbaros germânicos.

O mito brasileiro é o ‘verdeamarelismo’. Este se constitui na imagem celebrativa do país essencialmente agrário construída no período que coincide com o “princípio de nacionalidade” (1830-80) e resumida por Paul Singer no conceito de dependência consentida. Com a industrialização nosso mito fundador se transforma em compensação imaginária para a condição periférica e subordinada do país na divisão internacional do trabalho. O desenvolvimentismo dos anos 50 e 60, por seu lado, reelabora-o no sentido da ideologia do ‘Brasil Grande’ e na incorporação das classes operárias no ideário nacionalista, neutralizando os riscos de sua ação política. Isso porque os sujeitos de ação da pátria verde-amarela são agentes externos. São eles Deus, a Natureza e o Estado. O último sendo o agente da modernização, do desenvolvimento, da grandeza.

Se a escola pública é a fonte da promoção da ideologia nacional no período do “princípio da nacionalidade” e da “idéia nacional” em que se esboçam as feições do “caráter nacional”; a comunicação de massas e a indústria cultural abrem caminho para o surgimento da “questão nacional”. O caráter se constitui de uma totalidade de traços coerente, fechado e sem lacunas, enquanto a consciência implica o conceito de identidade que se traduz pela harmonia e/ou tensão entre social, individual e intra-social. A identidade implica numa relação com o diferente, com o outro, o que resulta necessariamente em choque e conflitos.

O período que este site busca englobar sinaliza para esse segundo momento, quando o cinema já se encontra consolidado como arte e indústria e se coloca como espaço privilegiado de manifestações contraditórias da “consciência nacional” em conflituosa construção. São os anos 50, 60, 70, 80, período desconcertante de nossa História e criativo de nossa cultura.

Ariel Pires de Almeida

Uma primeira reflexão sobre tema

In Propostas on 17/07/2009 at 9:59 AM

revolucao francesa

A nação e o nacionalismo são fenômenos de difícil compreensão. Sua complexidade reside no fato de serem parte de estruturas que até hoje nos circundam e nos motivam, apesar da crença de alguns por seu inevitável desaparecimento. Não é possível compreender a sociedade contemporânea – seus conflitos, esperanças, fés, e medos – sem passar pelo conceito de nação e nacionalismo.
O primeiro passo para seu esclarecimento é estabelecer a dimensão de sua historicidade, seus limites no tempo e no espaço. A origem da nação é mítica. Seu surgimento supostamente remonta tempos lendários e antigos, quando se constituem os desenhos étnico, lingüístico, racial e cultural de cada civilização que disputará entre si o espaço vital de sua sobrevivência ao longo da História. Seria, portanto, tão antiga quanto a própria História.
Na realidade, não há nada que exprima melhor a modernidade que a instituição do Estado-Nação. Sua constituição se dá concomitante e correspondente à formação da grande indústria e das relações de classe. Poderia ser inclusive datada segundo o historiador Eric J. Hobsbawn para a década de 1780, sendo a França o seu exemplo mais marcante e abrangente. Marcante por ter sido durante a Revolução de 1789 que se construiu a base da simbologia da ideologia nacionalista, culminada na instituição da religião cívica. Abrangente por sua repercussão sem tamanho que abalou estruturas e alicerces de um sistema que se entrelaçava por todo o mundo. Os reis foram subjugados e a bandeira tricolor – símbolo da Igualdade, Fraternidade e Liberdade – ergueu-se pelos confins do Ocidente.
A utilização do verbo “construir” não é acaso. A “nação” é antes de tudo uma construção, uma invenção. Nada mais natural, levando-se em conta o caráter da sociedade capitalista moderna, artificializada, colorida e de concreto. Seu objetivo é a sustentação de uma unidade política e econômica congruente. Sua base é a relação com outras unidades políticas e econômicas realizada através do comércio, hierarquizado segundo a divisão internacional do trabalho. Suas fronteiras são os limites do mercado nacional e da mão-de-obra nacional; a expansão redunda na ampliação de ambos – um que recheia os cofres estatais, outro que trabalha para recheá-los.
A engenharia social que envolve a invenção da identidade nacional pode ser identificada no processo de padronização – quando não formulação – da língua nacional. Processo que impõe a tecnologia da imprensa, a alfabetização em massa e, portanto a escolarização em massa, promovida pelas escolas públicas laicas. Esse tipo particular de Estado territorial – o Estado-Nação – só será possível num estágio específico de desenvolvimento tecnológico e só pode ser compreendido sob o espectro da ascensão da burguesia em finais do séc. XVIII. A interação entre os vários reinos, simbolizada pelos matrimônios entre a nobreza de países diferentes, será substituída pela competição e rivalidade que culminará nos horrores das guerras mundiais.
A construção nacional, entretanto,  se desenvolve dialeticamente num processo que vai desde a promoção da “consciência nacional” que atinge os grupos sociais desigualmente até a consolidação de programas nacionalistas que adquirem sustentação de massa. Este desenvolvimento é longo, repleto de rupturas, descontinuidades e em constante conflito.
Portanto, acima de tudo, o trabalho de analisar o fenômeno das nações e nacionalismos é um esforço delicado, pois devemos enxergá-los como “fenômenos duais, construídos essencialmente pelo alto, mas que, no entanto, não podem ser compreendidas sem ser analisadas de baixo, ou seja, em termos das suposições, esperanças, necessidades, aspirações e interesses das pessoas comuns, as quais não são necessariamente nacionais e menos ainda nacionalistas” (HOBSBAWN, 1990 – Nações e nacionalismo desde 1780, p.20).

 

Ariel Pires de Almeida