História, Cultura e Identidade Nacional

Cinema, História e Ensino

In Uncategorized on 10/08/2009 at 7:20 PM

man_with_a_movie_camera_poster_2Objetivo – a compreensão da obra de Glauber Rocha em vistas ao entendimento da construção da identidade nacional e das identidades de classe a partir de um ponto particular da História e por uma visão peculiar de estética

Tema: Revoltas Sociais na Primeira República – 1889-1930 (5 dias – 2 hs diárias)

Dia 1 – Exibição de “Deus e o diabo na terra do Sol”, Glauber Rocha (1964)

Dia 2 e 3 – Análise do filme (cena a cena)

Dia 4 – Contextualização e conceitualização das revoltas sociais da primeira república – tradições e contradições da estrutura política, econômica e social da República Velha e seus desenlaces

Dia 5 – contextualização da conjuntura e estrutura internacional do período (1889-1930) – A belle époque e o choque (Pax Britanica, Império e Imperialismo, Guerra Revolução e Crise)

Idealizadores: Ariel Pires de Almeida e Henrique Nakamura

Apoio: Cursinho Emancipa

Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1968), Parte II

In Filme on 03/08/2009 at 11:27 PM

roberto aventura

Os filmes de Roberto Carlos são importantes, pois revelam um amplo painel  da cultura brasileira nos anos 60. Roberto Carlos em Ritmo de Aventura faz parte de uma trilogia, completada por “Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-rosa”, de 1970, e “Roberto Carlos a 300 Quilômetros por hora”, de 1971. Todos foram dirigidos por Roberto Farias. Apenas no último Roberto Carlos não interpreta a si mesmo, mas um mecânico que sonha em ser piloto de Fórmula 1.

O filme é o resultado de uma parceria entre Roberto Carlos e Roberto Farias, que já havia dirigido em 1962 o filme “Assalto ao trem pagador”, bem recebido pela crítica e público. Junto com o filme, no mesmo ano, Roberto Carlos, com seu super-grupo RC-7, lançava o disco que é considerado o melhor de sua carreira, Roberto Carlos em Ritmo de Aventura.
O antagonismo entre o grupo que se uniu em torno da Jovem Guarda e o público dos festivais, incluindo aí o tropicalismo, era evidente. O que ficou conhecido como “Jovem Guarda” foi alvo de críticas hostis, acusações de alienação, descompromisso, e até de compactuação com o imperialismo americano. Entretanto, para constatarmos o impacto provocado pela Jovem Guarda e sua importância, basta analisar as vendagens de discos, audiência do programa e bilheteria deste filme.
Sua penetração popular não revela, mas oculta muitos aspectos da nacionalidade brasileira, e é aí que reside sua importância para nosso projeto. O rock brasileiro, ou a Jovem Guarda, merecem ser encarados como manifestações da contracultura em nosso país. O que hoje em dia soam como canções ingênuas, representaram um certo tipo de rebeldia para os padrões morais de sua época. E no final dos anos 60 e início dos 70, alguns desses mesmos artistas radicalizaram suas propostas estéticas e musicais, em algo que pode ser considerado a psicodelia brasileira. Ronnie Von foi o responsável por introduzir Os Mutantes no cenário musical, gravando com eles e Rogério Duprat seu LP de 1968. Erasmo Carlos, o outrora Tremendão, lança em 1971 o disco “Carlos, Erasmo”, no qual mistura com genialidade rock, samba, berimbaus e referências psicodélicas explícitas.
Roberto Carlos não assumiu a mesma postura. Na virada da década, Roberto Carlos se estabelece como um cantor das multidões, já coroado “Rei” por Abelardo Barbosa, o Chacrinha, em 1966. Assim, tem início sua fase romântica. Não por isso menos criativa musicalmente. Sua ligação com o Soul e a música negra americana tiveram grande êxito, como nas músicas “As curvas da estrada de Santos”, de 1969 e “Todos estão surdos” e “Como dois e dois são cinco”, de seu LP de 1971. Portanto, enquanto os dois últimos filmes da trilogia revelam ainda uma ingenuidade, musicalmente, muitos daqueles artistas davam sinais claros de maturidade.
O filme analisado aqui também adota alguns experimentos do cinema de vanguarda, como a meta-linguagem, pois estamos assistindo a um filme dentro do filme durante toda a narrativa, demonstrando que não se trata de um mero pastiche, mas carrega toda a complexidade de uma época.

“Deus e o Diabo na terra do Sol”, de Glauber Rocha

In Filme on 03/08/2009 at 5:08 PM

deus-e-o-diabo-na-terra-do-sol-foto1

Realizado no ano de 1964 “Deus e o Diabo na terra do Sol”  é o segundo longa-metragem de Glauber Rocha. A obra é reconhecida como um dos marcos do Cinema Novo, movimento artístico que aliava à estética inovadora  uma intensa combatividade política e que aprofundou  a reflexão sobre a linguagem cinematográfica no Brasil dos anos 60 e 70.  As obras de Glauber podem ser caracterizadas pela busca por um distanciamento da razão burguesa, tomando a arte como única linguagem capaz de se aproximar em profundidade da mística e do imaginário popular.

Glauber propõe ao espectador uma experiência de choque, não apenas pela abordagem de temas inovadores que estabelecem  reflexões acerca da cultura nacional, mas principalmente pela radicalização dos aspectos formais em suas obras.

Em “Deus e o diabo na terra do sol” Glauber constrói uma obra política sem, no entanto, elaborar uma reflexão política sistematizada. Sua proposta é politizar o misticismo, o irracionalismo e o inconsciente, sendo desta forma capaz de subverter a lógica de dominação do racionalismo ocidental. A partir de uma lírica que se aproxima da modernista o filme aborda questões como o milenarismo sebastianista, o cangaço, a exploração dos sertanejos pelos coronéis nordestinos e a solução dos distúrbios sociais pela bala.

O filme tem inicio com a imagem de uma carcaça em decomposição, introduzindo o espectador, através de uma imagem simbólica, à miséria, aridez e solidão nordestinas. A trama se desenvolve quando o vaqueiro Manuel, percebendo a exploração que o vitimiza,   assassina o coronel Morais e é obrigado a fugir com sua mulher Rosa. Durante a fuga, Manuel entra em contato com o beato Sebastião e seus seguidores e a eles se integra.

É possível perceber que a construção do personagem beato Sebastião mescla referencias a Antônio conselheiro e às construções míticas em torno do retorno do rei português  D. Sebastião. O beato Sebastião representa a imagem mítica do messias capaz de transformar a ordem vigente , reunindo em torno de si sertanejos oprimidos pela miséria e pelo autoritarismo. Por meio de um catolicismo místico e popular, que foge aos cânones da Igreja Católica, e através de um discurso não-linear, Sebastião prega uma idade de ouro para os oprimidos afirmando que o “sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”.

Os beatos seguem para a terra sagrada de Monte Santo e passam a ser enxergados por coronéis e autoridades da igreja católica como ameaças à manutenção da ordem social. O matador de cangaceiros Antonio das Mortes é contratado a fim de exterminar a comunidade de beatos  . Apenas Manuel e Rosa sobrevivem ao massacre e em nova fuga se unem ao bando de cangaceiros liderados por Corisco. Estes, assim como os beatos, são sertanejos oprimidos pela fome e pela miséria, que adquirem visibilidade através da violência e da subversão da ordem.  A maior parte do bando, inclusive Lampião e Maria Bonita, já havia sido exterminada por Antonio das Mortes, que continua perseguindo Corisco até finalmente assassiná-lo .

Ao longo do filme acompanhamos a saga do vaqueiro Manuel e de seus encontros com o Deus negro (beato Sebastião) e o Diabo loiro (Corisco). A força do filme reside justamente na busca por desarticular a razão ocidental que reprime e destrói tudo que é irracional. Para isso Glauber não apenas tematiza, mas também incorpora na linguagem e na forma do filme o misticismo e a irracionalidade.