
A terceira destas narrativas chama-se “couro de gato” e é dirigida por Joaquim Pedro de Andrade. Conta a história de meninos de favela que roubam gatos para vende-los ao homem que irá arrancar o couro dos gatos para a confecção de tamborins. É interessante a tensão criada pelo diretor entre a luta por sobrevivência dos meninos na dura vida da favela e os desejos e sonhos de uma criança. O diretor cria uma certa ambigüidade ao caracterizar o menino que é bem sucedido no roubo do gato: de uma lado ele se distancia do fato de ser uma criança por roubar um gato, fumar cigarro e ser muito esperto; de outro é caracterizado como inocente pelo diretor quando este sugere a partir das imagens o ato de roubar um gato como uma brincadeira de crianças de favela, além do desejo que a criança demonstra, após estar com o gato em mãos, de ficar com o gato e brincar com ele. A ambigüidade se desfaz no momento em que o menino divide sua comida com o gato. Percebendo os custos que o gato traria para sua vida já miserável a criança deixa de lado seus desejos infantis e ingênuos e “opta” por continuar sua luta por sobrevivência em meio a dura realidade em que vive, vendendo o gato.
O quarto episódio do filme tem a direção de Carlos Diegues e se chama “Escola de samba Alegria de Viver”. Consiste basicamente na tensão enfrentada por um novo presidente de um grêmio recreativo da favela entre superar as dificuldades da realização de um desfile de carnaval da forma que deseja e sem dinheiro ou ceder às imposições financeiras e comerciais do meio. Aqui o contexto social da favela e da falta de dinheiro é mostrado como um limitador das escolhas de seus habitantes.
A ultima narrativa que compõe o filme chama-se “Pedreira de São Diogo” e foi dirigido por Leon Hirszman. A trama consiste no fato de existir uma favela sobre uma pedreira. Ao descobrirem que a próxima carga de explosivos será suficientemente grande para acarretar o desabamento dos barracos os funcionários da pedreira, alguns deles moradores da favela, se mostram bastante preocupados com a situação e tentam achar uma solução para salvar os barracos e os favelados, sem que percam seus empregos. Para tanto, um dos operários sobe à favela a fim de avisar os moradores do iminente desabamento e incita-los a resistir. O diretor cria uma oposição entre os funcionários da pedreira e favelados contra o engenheiro (caracterizado como uma personagem desumanizada) que representa os interesses do dono da pedreira.
